Música e militância, militância na música. Entrevista com Nenê Altro

Por: Vinícius Aliprandino

Para quem conhece a cena independente e até mesmo para muitos que não a conhecem, esse nome soa forte, Fábio Altro, conhecido popularmente como Nenê Altro. Ativista, anarquista, Punk, polêmico e um grande ícone da cena Punk/Rock/Alternativa. Membro e fundador de inúmeras bandas, seus trabalhos conhecidos vão desde o Dance of Days, Maldita Minoria, Total Terror DK, Nenê Altro e o Mal de Caim, Sick Terror, Personal Choice. Além da música, Altro é conhecido também por seus livros, Os Funerais do Coelho Branco e O Diabo Sempre Vem Para Mais Um Drink; e pelo lançamento de várias coletâneas que incentivam o cenário independente. Enfim, sem muita enrolação por aqui, vamos a entrevista.

 

 (Papo Alternativo) Sabemos que você foi militante durante a década de 80 e 90, e sabemos que muita coisa no seu modo de agir e pensar mudou e amadureceu. O que alterou daquela época para os dias de hoje?

(Nenê Altro) Acho que é impossível separar a militância da vivência, do que acontece em sua vida pessoal. Esses dias eu estava vendo umas coisas lá pra trás, da época do MAP em Mauá, e realmente eu era bem mais radical, mas percebi que isso se encaixava no contexto de tudo que eu vivia naquela época, afinal, fazem mais de 20 anos. E, se não fosse o MAP, talvez eu nem tivesse os mesmos pontos de vista que tenho hoje. Aliás, com certeza não. Tenho muito orgulho de ter participado e principalmente aprendido com aquela galera. Depois veio o anarco-sindicalismo, ainda fecho com algumas coisas, mas nunca foi minha bandeira do coração, apesar de meu apoio total à causa. Tive uma grande experiência federativa libertária com a Juventude Libertária de São Paulo – AYF, mas também acabei rompendo. E tudo isso não deixou de ser uma escola. Me tornei anarco-individualista no final dos anos 90, mas admito que foi em boa parte por frustração com toda essa sequência de atividades que tive desde os anos 80, que, na época eu considerava fracassos, mas hoje vejo de uma maneira bem diferente. Após mais de uma década de atividades individuais, tanto com a propaganda, no Jornal Antimidia, quanto através da música, com o Dance of Days, encontrei com velhos amigos ligados a antiga UGT, anarco-sindicalista, e à “Juventude Libertária da COB”, e enfim estou retornando a militância coletiva no Centro Anarquista Ação Direta. Mas reconheço que meu grande suporte nesse sentido está sendo a confiança e a segurança de duas décadas de amizades. Ainda tenho o ponto de vista individualista, mas estou um pouco mais mente aberta para as conquistas em coletivo. É bom sentir esse tipo de mudança.

(Papo Alternativo) Quais as formas que você enxerga para se lutar hoje em dia em defesa de uma causa, quais os caminhos que você acha importante traçar, como fazer isso ter impacto nos dias de hoje, onde parece que a sociedade vive cada vez mais apática e alienada?

(Nenê Altro) Acredito sim na mudança da sociedade através da desobediência civil, aliás, essa é a força que me faz acordar todos os dias desde a adolescência. Hoje em dia eu acho que o mais importante é o trabalho no próprio meio libertário, como primeiro passo. Acho que grande parte da galera mais ativa, que está saindo às ruas, está muito presa a caricaturas do militante com “lenço na cara” e etc. Muita gente está colocando comunismo e anarquismo no mesmo barco somente porque quer fazer parte de uma sigla ou de um movimento que une tribos urbanas, e a coisa não é bem assim. Acho estranho ver o A de anarquia ao lado da foice e do martelo em símbolos, mas, como eu disse, quem sou eu pra julgar? O que proponho é que cada um faça seu trabalho, visto que, pelo menos em teoria, os objetivos sejam comuns, mas também que me permitam fazer o meu da minha forma sem me encherem o saco. A proposta do CAAD, que nos uniu, é a de oferecer o debate construtivo e a cultura aos interessados em militar de maneira clara e objetiva. Fora isso, acho interessante a resposta que estou tendo com meu novo jornal, e, confesso que fiquei surpreso com o número de pessoas interessadas nos textos anarquistas pessoais que venho publicando no PEST. Principalmente por 90% dessas pessoas serem de fora de grupos anarquistas já ativos e estarem se interessando pela ideia. Mas isso eu digo em termos de luta pessoal. Acredito que muita gente boa está se mobilizando, vejo muitos coletivos por todo país fazendo atividades, e acredito que só pelo fato de estarem atraindo novas pessoas já é um inicio de um futuro impacto social maior.

(Papo Alternativo) Musicalmente falando, suas bandas sempre trazem estampada estantes de cultura e ações, mesmo que nas entrelinhas. Você acredita que a música tenha grande força em questões de alerta e um despertar das ideias e das ações?

(Nenê Altro) Sim, meu trabalho com o Dance of Days sempre foi pensado e militante, embora grande parte das pessoas se apoie novamente em caricaturas que as cegam para compreender o trabalho. O que na verdade também não me importa, pois estou fazendo o meu corre e tem muita gente que me acompanha e entende. O primeiro disco em português do Dance abre com uma musica contra homofobia (Se Essas Paredes Falassem), emenda com duas músicas sobre divisões e traição ideológica (Ícaro Sobre As Chamas e Corvos do Paraíso) e já de cara vem com uma música ateísta (Vinde a Mim). Ou seja, não é só porque não tem a mesma sonoridade de todas outras bandas punks que não é militante. O disco seguinte, Coração de Tróia, tem músicas que falam de esperança, de Guerra Civil Espanhola (Nos Olhos de Guernica), de luta anti-capitalista (Correção) e etc. O Valsa de Águas Vivas, de 2004, tem uma música abertamente anarquista, a Vitória, que diz “não mais respeitaremos nenhuma lei que diga o que não podemos ou o que temos que fazer” e “nunca mais viveremos à sombra de teus deuses e reis”. Enfim, a política anarquista sempre fez parte de minha luta artística. Basta ler a letra de Discórdia, do último disco do Dance of Days, de 2010: “Desligue sua TV e leia 1984 (desconfie dos vermelhos). Entenda Malatesta, Emma Goldman, Durruti. Seja alguém verdadeiro, não pise nos outros e comece por você. Acima de entender, faça. As rádios mentem: é tudo criado pra você não pensar em nada.”

(Papo Alternativo) Podemos dizer que a música é uma forma de militância? Em seus projetos você encara e encarou dessa forma?

 (Nenê Altro) Sim. O Chumbawamba, em seu ep “Revolution”, mudou muito minha forma de pensar, lá atrás, ainda na época do Personal Choice. Havia uma frase que dizia que “A música não é o perigo. As AÇÕES que a música pode inspirar é que podem ser”. Desde então me dediquei a esse trabalho de passar a política e o questionamento através da música, tentando escapar da fórmula “dedo na cara”. E não que não goste desse lado mais direto do punk, tanto que, se não amasse isso também, jamais teria criado o Sick Terror em 1999 ou hoje, em 2012, o Maldita Minoria. Amo esse tipo de som, direto e agressivo, só não acho que seja o ÚNICO caminho, apenas um entre tantos outros para levar a luta adiante. Acho também que muita gente julga tudo sem conhecer os trabalhos, só pelo que “ouviu falar”, e isso é o que acorrenta tanto a cena musical independente no Brasil a dogmas sem sentido. Até entre os fãs de Dance existe isso, tem pessoa que fala que o “Coração de Troia é o álbum mais pesado do Dance” mas parece que não enxerga no mesmo disco Caulfield e Horizontes de Outono, ou que fala que “Dance é pop!” e não conhece musicas como Carro Bomba, Colheita Maldita, etc… Eu sempre considerei a música, a arte, como um instrumento revolucionário. Se não pensasse assim não teria deixado o Pela Paz Em Todo Mundo mudar tanto minha vida quando comprei o LP.

(Papo Alternativo) Quais os projetos e metas que você tem agora?

(Nenê Altro) Bom, o Dance acabou de mudar de formação, então, como foi algo que eu não esperava, adiei todo restante de meu cronograma de trabalho para 2013. Esse ano quero ensaiar muito com o Dance, sem pressa, ver como vai ser a cara nova da banda, afinal é minha vida, todo um trabalho de lutas e conquistas. Em paralelo quero tocar muito com o Maldita Minoria e cumprir nosso planejamento de gravar um disco “cheio” ainda esse ano. Estou bem mais empolgado com essa nova banda thrashcore do que na época do Sick Terror, acho que por saber o que fazer e os erros que não cometer. Meu novo livro ficou pro ano que vem… Esse ano vou manter a trimestralidade do PEST, firmar mais o trabalho na Teenager e preparar o Centro Anarquista Ação Direta, junto com meus camaradas, para abrir as portas com tudo em Janeiro. É bastante coisa né? Rsrsrs Mas seria injusto não falar também que estou vagarosamente concluindo minha missão com o Antifest, que movimentou muito a cena – tenho orgulho disso – nos últimos anos, e iniciando um trabalho com uma nova produtora de eventos (Rad Rock) aqui no ABC paulista, que é onde me vejo cada vez mais fincando os pés para finalmente estabelecer raízes.

(Papo Alternativo) Após o sucesso das 3 edições do Manual de Resistência, quando deverá sair a próxima?

(Nenê Altro) Fiz 5 edições da Rock São Paulo, documentando a cena do estado. Ficou faltando um monte de bandas, claro, mas considero meu trabalho cumprido e minha contribuição dada no caminho de muita gente. A Manual de Resistência teve 3 edições e quero fazer mais uma ainda, pro início do ano, ate porque muita gente já está interessada, mas também será a edição final do projeto, que também me orgulho muito de ter feito. Nesse momento estou trabalhando na primeira coletânea em cd não replicado do selo, a DESGRAÇA SONORA #1, que vai sair em caixinha de acrílico, produção industrial, tudo direitinho. É um passo que demorei 3 anos pra dar mas que, como disse antes, a seu tempo foi se tornando possível. Para esse novo trabalho, vou ter 20 bandas, todas na pegada mais extrema de música, do punk ao grind, crust e metal extremo, e pretendo ter também umas 4 edições. A primeira sai esse ano e vai ser totalmente vinculada ao trabalho que estou fazendo com o PEST ZINE. Quem quiser saber das atividades pode acompanhar ou pelo face na página Antifest Antireckordz ou pelo blog do selo nohttp://antireckordz.wordpress.com/

(Papo Alternativo) Deixe um recado para os fãs de seu trabalho.

(Nenê Altro) Gostaria muito de aproveitar a oportunidade e agradecer aos fãs que ultrapassam ao “gostar da banda” e que sempre estão lado a lado conosco nessa luta, aos que entendem que tudo isso é muito mais que música. Sempre foi. E mais ainda, queria agradecer aos fãs do Dance of Days que não são omissos, aos que se posicionam e defendem o nosso trabalho quando as más interpretações (muitas vezes propositais) são espalhadas para tentar distorcer o sentido do que fazemos. Vocês sim fazem parte da frequência que falamos, são as “crianças do campo” do Dance of Days. E o mundo é realmente de vocês, das pessoas que tem atitude e dos que não se calam. É só observar, são os que fazem a diferença na história. Fico muito feliz quando pego gente falando mal desse trabalho que fazemos com tanto carinho e vejo os fãs defendendo aquilo que amam pois sempre fui assim com todas as bandas que amei em minha vida, muitas das quais carrego comigo marcadas na pele, como o Cólera, por exemplo, e é a vocês que dedico esse espaço de agradecimento. Força sempre.

4 comentários Adicione o seu

  1. Provos Brasil disse:

    É ainda existe muita alienação por aí…

  2. Gostei muito da entrevista. Levo o Dance of Days como banda do coração, tanto por aquilo que me faz sentir quanto por aquilo que me leva a pensar e questionar. Aprendi muito. Estruturou muito do que sou hoje. As idéias e referências que o Nenê divulga me inspiram e dão fôlego pra continuar levando adiante a ideologia que tenho hoje em minha vida. Só tenho a agradecer.

  3. Pedro Turco disse:

    Muito boa a entrevista, perguntas sérias/profissionais e as respostas do Nenê obviamente sempre na lata e inteligentes.

    me sinto ‘parte’ do Dance of Days, pois como ele mesmo falou: ‘é mais que música, sempre foi’

    parabéns.

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