Liberdade é combate! Bate papo com integrantes do Flicts

Por: Vinícius Aliprandino

Flicts

Em atividade desde 1996, o Flicts é uma banda muito presente na cena independente nacional. Uma das mais famosas do Punk Rock brasileiro da atualidade, a banda possui um listas de músicas que podem ser cantadas como hinos, com conteúdos equivalentes a aulas libertárias e que propõe o fim da apatia. Seu último trabalho é o álbum, Singelos Confrontos, que mostra um lado ainda mais sério da banda. Há algumas semanas, entramos em contato com a banda que nos concedeu uma entrevista onde falaram sobre o surgimento da banda, os planos para o futuro e qual a visão que eles tem das manifestações que aconteceram no Brasil no ano de 2013.

(Papo Alternativo) Quando surgiu o Flicts e o que levou a colocar esse nome na banda?

(Arthur) O Flicts começou mesmo em 1996. Mas, antes, eu e meu irmão já tocávamos juntos por volta de 1993, 1994 com amigos de infância e da escola tocando covers das bandas que a gente gostava. Não havia qualquer pretensão de se apresentar, gravar demos e discos, até porque a gente era muito jovem e, eu pelo menos, estava aprendendo ainda.

Só depois, quando a gente começou a levar a sério mesmo, com a ideia de compor nossas próprias músicas, sair por aí pra se apresentar, é que resolvemos colocar um nome. E Flicts era o nome de um livro do Ziraldo que a gente lia desde criança. Fala sobre uma cor que tenta encontrar seu lugar no mundo, mas que não se encaixa, que ninguém gosta, enfim. E diante disso, ela vai atrás do seu próprio caminho. Ideia bem semelhante com tudo o que o punk representa, pelo menos na nossa opinião. E foi só fazer a relação entre as coisas para dar o nome de “Flicts” à banda.

(Papo Alternativo) O que levou a criar uma banda?

(Arthur) Difícil responder essa pergunta porque não há uma razão concreta e simples, entende? Acho que faz parte de um processo que começou, pelo menos pra mim, com o primeiro contato com a música em geral, depois com o rock e, em seguida, com o punk. E isso, em um momento em que você ainda é criança. Logo, você não tem capacidade e nem maturidade pra saber o que está acontecendo. Mas, no plano do sentimento, da sensação, a música causou um impacto muito forte. Você começa a pegar gosto pela música, vai atrás, começa a prestar atenção nas letras e logo percebe que o mundo não é uma maravilha. E vem aquele sentimento de fazer algo, de tentar transformar a realidade, do questionamento próprio do jovem. Pelo menos o jovem era assim. Hoje não sei mais.

Porém, depois dessa identificação, meu irmão trouxe uma guitarra pra casa. Era de um primo nosso. E eu, já gostando de punk, de rock, comecei a tentar tocar, insistindo, até aprender o básico. E quando você vai ver, já está em uma banda. Então, nunca teve uma razão simples para montar uma banda. As coisas vão acontecendo naturalmente.

(Rafael) Pra falar a verdade, não sei se consigo me lembrar do que me levou a criar uma banda. Eu tinha 15 anos, nunca havia tocado nada. Foi algo meio subconsciente, acho. Havia a vontade de me expressar, mas sem saber bem o quê nem como. Experimentei desenho e literatura, mas o que deu vasão à vontade foi mesmo a música.

(Papo Alternativo) Como e quando foi que cada um de vocês tiveram contato com o Punk?

(Arthur) Cara, no meu caso, foi por meio da galera do bairro em que a gente morava no Piqueri, Pirituba, Freguesia, lá pra 1987, 1988. A galera andava de skate e ouvia as bandas punks Cólera, Ratos de Porão, Inocentes, Garotos Podres, também Ramones e Sex Pistols. E alguém trazia uma fita cassete que era a cópia, da cópia, da cópia, ou vinha com um vinil. Começou mais ou menos assim e depois, a gente passou a ir atrás das coisas.

(Rafael) Por ser alguns anos mais velho que meu irmão, Arthur, entrei em contato com o punk um pouco antes, em 1985 mais ou menos, mas também por conta do bairro e dos amigos mais velhos. No começo, foi mais pela música, depois, veio a questão política, o anarquismo etc.

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(Papo Alternativo) Como vocês enxergam o movimento Punk na atualidade? O que falta e o que poderia mudar para melhorias na cena?

(Arthur) A gente sempre bate na tecla que o punk não pode ficar em um gueto, fechado. É preciso expandir fronteiras, dialogar com as pessoas, claro, sem abrir mão de convicções, de um posicionamento. É fácil fazer isso? Claro que não. Como fazer? Não sei ao certo. Mas, é preciso tentar.

E só vamos conseguir isso quando deixarmos velhas atitudes, posturas e vícios para trás. Veja, são coisas que não mudaram e são as mesmas há mais de 30 anos!

Por exemplo, quando se fala em rock ou em punk, já se pensa em formar uma banda. Mas, para que haja uma cena com um mínimo de estrutura, é preciso que haja mais que isso. É preciso que haja gente disposta a organizar um show, ter uma casa com estrutura, que possa oferecer um show de qualidade. É preciso que haja pessoas dispostas a lançar discos, livros, produzir arte, jornais, manifestos, fanzines, para que assim tenhamos uma ação mais abrangente. Não é a toa que uma casa como o Hangar 110 teve o impacto que teve no fim dos anos 90. Veja a diferença que uma atitude isolada provocou em um grupo de pessoas. É desse tipo de postura mais proativa de que estamos falando.

(Rafael) Como cultura, o Punk faz parte do universo pop. Talvez o seu lado B, mas certamente ele surge em meio ao fenômeno pop e à indústria cultural, que ganham força nos anos de 1960 e 1970. Assim, se o Punk não aprofunda, radicaliza nem amadurece sua postura política libertária, ele não passa de rebeldia pop ou, no máximo, ganguismo pueril e contraproducente. Sinceramente, acho que é preciso ser mais anarquista e menos punk, mais revolucionário e menos rebelde. As discussões sobre o que é punk e o que não é, quem é punk e quem não é, não me interessam mais. Elas não levam a nada. A questão é como atuar de maneira libertária através da música, rompendo fronteiras e ajudando a fortalecer a cultura e o movimento anarquista.

(Papo Alternativo) A formação atual ainda é a mesma do início do Flicts?

(Arthur) Não. Eu e meu irmão estamos desde o início e os baixistas foram chegando e saindo até 2003, quando o Jeferson entrou. Desde então, somo nós três. Portanto, estamos juntos com essa formação há mais de 10 anos.

O que pouca gente sabe é que, uma única vez, o Flicts tocou com quatro integrantes. Meu irmão cansou da bateria e resolveu que queria tocar guitarra. Então, o nosso baixista na época conhecia um baterista e o cara passou a ensaiar com a gente. O cara era de Bertioga e vinha para São Paulo em alguns fins de semana só pra ensaiar. E fizemos um show assim, com 4 integrantes, justamente em Bertioga. Eu na guitarra e vocal, meu irmão em outra guitarra, o Renato (que foi o primeiro baixista) e esse cara na batera. O que houve é que, logo depois desse show, meu irmão não curtiu a experiência e resolveu voltar para a bateria; e obviamente, o Flicts voltou a ser um trio. Isso deve ter ocorrido lá pra 1997, 1998.

(Papo Alternativo) Quais eram as influências do começo da banda? O que mudou de lá pra cá?

(Arthur) Cara, não mudou muita coisa não. As nossas influências iniciais eram bandas punks americanas, inglesas e brasileiras do fim dos anos 70 e começo dos anos 80 como Ramones, Sex Pistols, Clash, Cock Sparrer, Anti Nowhere League, Dead Kennedys, Circle Jerks, Ratos de Porão, Inocentes e Cólera. E eu ainda ouço basicamente as mesmas coisas. Claro que, com o passar dos anos, acabamos conhecendo outros grupos de outros países que também nos influenciaram bastante com o La Polla da Espanha, 2 minutos da Argentina, o Rasta Knast da Alemanha. Então, não mudou muita coisa…

(Papo Alternativo) Das bandas novas, o que vocês tem ouvido ultimamente?

(Arthur) Eu tenho ouvido o Veneno Lento, amigos nossos aqui de São Paulo e o Dissônicos de Brasília. De fora, mais recente, tenho ouvido OFF!

(Rafael) Sistematicamente, não tenho ouvido bandas novas.

(Papo Alternativo) Houve uma época em que a banda esteve parada, quais motivos que levaram a essa pausa nas atividades?

(Arthur) Em 2005, meu irmão nos disse que não tinha mais interesse em continuar no Flicts por várias razões e comunicou a mim e ao Jeferson que estava saindo. Diante disso, eu e Jef decidimos não continuar mais com a banda porque não teria sentido levar o grupo sem meu irmão. E foi basicamente isso. Mas, apesar da pausa, nós fizemos shows por variados motivos a cada ano até a volta em 2010. E lançamos a versão nacional do split com o Agrotóxico em 2007, o Third World Jihad, para gravar as músicas que nunca tínhamos gravado até então como A Todo Anarquista.

(Rafael) Eu precisava de um tempo para avaliar o papel da banda, se fazia sentido continuar tocando quando, se havíamos contribuído para uma politização mais madura do punk em direção a uma prática anarquista mais ampla, menos isolacionista. Quando vi que não, resolvi parar. Pelo mesmo motivo, voltei. Acho que podemos redirecionar os esforços da banda no sentido de romper o isolacionismo, o caráter fechado do movimento punk, mas mantendo a autenticidade e a integridade da banda fortalecendo o posicionamento anarquista. Eu realmente acredito que ser anarquista é mais relevante do que ser punk.

(Papo Alternativo) Sabemos que dentro de uma banda podem existir vários ideais. Como vocês lidam com isso no Flicts? As diferenças são colocadas na mesa e analisam o que deve ser passado ao público? Vocês procuram apenas demonstrar aquilo que tem em comum?

(Arthur) Cara, pensamos basicamente da mesma forma, então, nem há esse tipo de discussão.

(Rafael) Música não é texto teórico nem programa de ação estratégica, assim, através de nosso som, passamos as ideias mais gerais sobre o que acreditamos ser os temas libertários. E nisso, é fácil construir um consenso sem muito debate. Claro que, se fôssemos publicar um manifesto, produzir teoria e tudo mais, essas discussões prévias seriam necessárias. Mas não é o caso.

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(Papo Alternativo) O que vocês pensam a respeito dos protestos que tem acontecido no Brasil de uns meses pra cá? Muitas vezes é dito que estamos em uma guerra civil. Esses protestos podem ser fruto disso? Pode ser que seja essa guerra tomando caráter maior e chegando a um público que antes não tinha conhecimento ou é uma revolta à parte muitas vezes alienada, mas com sede de mudanças? Vocês acreditam que isso pode ser uma forma de se libertar da apatia?

(Rafael) As chamadas Jornadas de Junho (2013) tiveram diversas facetas e é difícil falar de todas elas sem cometermos erros de avaliação. Não acho que as diversas manifestações tiveram o mesmo caráter. Acontecerem em momentos diferentes, com participação de grupos diferentes, em cidades diferentes. De qualquer forma, acredito que elas tiveram alguns efeitos positivos.

Em primeiro lugar, mostraram que movimentos, organizações e ações autônomos, baseados na horizontalidade, podem ser politicamente impactantes. Em segundo lugar, fragilizaram o monopólio da grande mídia sobre os acontecimentos, já que, regra geral, a versão dos grandes grupos de comunicação era rapidamente desmentida pelos próprios manifestantes que, lançando mão de diversas tecnologias, produziam e disseminavam contrainformação. Por fim, elas serviram para galvanizar esforços libertários, que até então se encontravam debilmente conectados, e para apontar aos descontentes o caminho possível da organização e das manifestações e enfrentamentos de rua.

Por outro lado, pelo menos em São Paulo e outras localidades, o caráter combativo, libertário e esquerdista das primeiras manifestações, acabou sendo diluído por demandas tipicamente conservadoras, quando os grandes grupos midiáticos e a classe média conservadora viram nas passeatas a chance de defender suas posturas direitistas, como pena de morte, redução da maioridade penal, banimento da esquerda etc. Ou seja, é preciso perceber que as primeiras manifestações foram libertárias. Mas após um determinado momento, elas passaram a pender para a direita. Aqui em São Paulo, ao notar esse deslocamento, o MPL (Movimento Passe Livre) e outras organizações souberam corretamente interromper o ciclo de passeatas após o aumento da tarifa ter sido suspenso. Do contrário, a direita sairia fortalecida e o tiro sairia pela culatra.

(Papo Alternativo) Além da banda, quais são os outros projetos e trabalhos que os integrantes tem?

(Arthur) Musicalmente, toco também no Agrotóxico desde 2005. Profissionalmente, sou jornalista e trabalho há 8 anos e meio na rádio Bandnews FM. Atualmente, integro a equipe de esportes da rádio.

(Rafael) Musicalmente, só toco mesmo no Flicts. Mantenho algum contato com grupos autônomos, como a Casa Mafalda e outros, mas não faço parte dos coletivos. Tenho procurado estudar anarquismo, política, economia, filosofia e participar de modo libertário da política referente à categoria dos professores, da qual faço parte.

(Papo Alternativo) Como é feito o processo de composição das músicas do Flicts?

(Arthur) Quase todas as músicas começam na guitarra ou no violão. Depois, a gente tenta encaixar uma melodia de vocal. Quando achamos que está bom, aí a gente faz a letra com base naquela melodia de voz. Depois com essa ideia central, a gente vai para o estúdio de ensaio e vai trabalhando os detalhes, começo, transições, solos, arranjos, enfim…

(Papo Alternativo) Quais as novidades que o público pode esperar para 2014? Tem algum clipe vindo?

(Arthur) Cara, a gente tem alguns planos. Com certeza, vai sair um EP com umas músicas novas. Todas foram gravadas na mesma sessão do “Singelos Confrontos”, mas resolvemos guarda-las para lançar esse material agora. Queremos ainda, não sei se necessariamente neste ano de 2014, fazer um DVD com a história da banda, um show ao vivo. E também fazer um clipe, quem sabe, nunca fizemos nenhum.

(Papo Alternativo) Quais as mudanças que vocês mais notaram no Singelos Confrontos, comparado aos trabalhos anteriores, seja na parte ideológica ou musical?

(Arthur) É um disco mais sério, mais maduro com relação às letras, principalmente. Até porque não temos mais 18 anos, nossa rotina de vida já não é a mesma, as prioridades são outras, temos outra vivência.

Musicalmente, continua basicamente igual, com algumas melhorias aqui e ali.

(Papo Alternativo) Em relação à música “Meu bairro, minha rua”, a qual época e local ela diz respeito exatamente?

(Arthur) Essa música em questão eu fiz pensando no bairro em que a gente cresceu, Piqueri, na zona oeste de São Paulo. Nem eu, nem meu irmão moramos lá hoje, mas quando passamos por lá, a gente percebe como as coisas mudaram em pouco tempo. Já subiram uns três prédios novos na região, os locais onde a gente jogava futebol já não existem, os butecos já viraram outras coisas, as pessoas que a gente conhecia já saíram de lá também. A música é sobre essa diferença entre o que era e o que é; mudanças que ocorrem em uma cidade como São Paulo que não para, em que tudo se transforma e que, em meio a esse processo, o único rastro do que existiu fica em fotos ou na nossa memória.

(Papo Alternativo) Vocês enxergam a banda apenas como música cantando hinos que podem ser uma espécie de trilha sonora das buscas por mudanças no sistema ou ela em si já é um meio de fazer as pessoas enxergarem o que está acontecendo e buscarem uma luta por melhorias? E como vocês esperam que as canções do Flicts possam atingir quem as ouve?

(Arthur) Cara, não acho que qualquer banda, por si só, tenha o poder de ser uma ameaça de fato. Mas, não quer dizer que as bandas não sejam relevantes diante de um cenário mais amplo de contestação.

De qualquer forma, na minha concepção, nós já mudamos um pouco o mundo quando recebemos uma carta de uma banda de meninas de uma cidade no interior do Mato Grosso do Sul com um DVD dentro. E no DVD, havia um vídeo da banda delas abrindo o show em uma praça da cidade com “Canção de Batalha”.

Nós já mudamos o mundo um pouco quando o Rasta Knast da Alemanha gravou um cover de “Em Nosso Coração”.

Ou quando a gente foi chamado recentemente para tocar em Brasília pela primeira vez e a galera cantou todas as músicas. Mudamos um pouco o mundo quando várias pessoas usam a música “Amigos” para homenagear gente que eu não conheço em vídeos na internet.

Para mim, nossa vitória é essa.

(Rafael) A música serve como um impulso, como um incentivo, mas, no fim, são as pessoas quem devem levantar e tomar as rédeas da própria vida e construir sua autonomia. Talvez as bandas anarquistas, contestadoras, sensíveis, não sejam capazes de fazer um mundo melhor, mas ele seria pior sem essas bandas.

(Papo Alternativo) Essa última pergunta é reservada para vocês falarem sobre o que não foi abordado na entrevista ou para deixar uma mensagem ao público que acompanha o Flicts.

(Arthur) Valeu pelo espaço! Para acompanhar o Flicts é só ficar ligado no nosso site oficial: http://www.flicts.net

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