De Bauru para o mundo – Conheça o Pós-punklore do La Burca

Por: Vinícius Aliprandino

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Crédito: Luís Germano

Sabe aquela ideia de que a primeira impressão é a que fica? Então, com o La Burca é assim. No primeiro momento em que você lê o nome “La Burca” acaba por achá-lo não apenas legal, mas também interessante, engraçado, original e forte. Durante a entrevista, a cada resposta, estava sendo comprovado a impressão e sendo possível absorver um pouco mais sobre essa banda que tem tudo pra crescer no cenário musical e compreender que realmente eles fazem jus as qualidades que citei com relação ao nome. Claro que não só na parte falada e escrita, mas as músicas da dupla seguem as mesmas qualidades.

Criada em Bauru há pelo menos um ano, o duo, formado por Amandla Rocha (violão e voz) e Lucas S. (bateria), mostra que tem sede de participação e já abriu o show para bandas como Cólera, Ratos de Porão e Mundo Livre S/A, além de ter uma música sendo trilha de um curta-metragem, mas para melhor entender sobre o universo dessa dupla, precisamos deixar eles falarem. Confiram a entrevista que o Papo Alternativo realizou com o La Burca logo abaixo.

(Papo Alternativo) Como e quando surgiu a ideia de cria uma dupla? Quais são as influências da dupla? Vocês se inspiraram em outros duos para montar o La Burca?

(Amandla R) Nasceu como uma necessidade de expressar o que eu tinha “guardado e empoeirado” (músicas, textos e imagens) desde 2001. Mas somente em 2011 pensei em duo – deu um start de fazer algo além do que eu já fazia (toco baixo desde 1995). Estreamos nos palcos em fevereiro de 2013, juntamente com nosso EP “La Burca”- feito de forma artesanal – faça-tu-mesmo.
Como sempre gostei de sons folks e neo-folks, somei isso a todo contexto garageiro e (pos)punk que cresci ouvindo e tocando. Então inventei o termo punklore pra banda, que é uma mistura das influências mais significativas pra mim: o punk, o pos-punk e o folk.
Fora estes gêneros musicais, gosto de muita coisa desde o som alternativo, grunge, instrumental, experimental, krautrock, música clássica…uma mistura sonora…

Lucas: Escuto música brasileira, hardcore, e “sons variados desde buzina no trânsito”.

(Amandla R) Não temos essa coisa específica: “ah, isso nos influência”.. .acho que é mais um reflexo do que vivemos, sentimos e absorvemos culturalmente ao longo dos anos. Bagageira existencial hahaha. Quanto a duos, não tenho nenhuma referência específica, na real, não conheço muito duos. Depois que montei a La Burca que me interessei um pouco por duos, tem um bem massa norte-americano The Swords of Fatima – uma mina e um cara, e eles se pintam também, foi muita coincidência!

 

(Papo Alternativo) Geralmente as bandas enfrentam muitas dificuldades em suas formações, vocês acreditam que formando uma dupla essa situação se complique menos? Mesmo com uma dupla ainda rola tensões, claro que em menor número, entre os integrantes ou vocês sempre concordam nas ideias e nas melodias e entre outros assuntos que possam envolver a banda?

(Amandla R) Sim, é menos estressante, embora também meio tenso no sentido “técnico” de dependermos só de violão, voz e batera. É uma responsa e tals, tem que tá em sintonia pra não atropelar um ao outro. E temos um bom entrosamento, eu faço as músicas e muitas vezes a batera já vem pronta na cabeça, ou então discutimos como ficaria melhor em cima de uma idéia pré-concebida. O Lucas tem muita facilidade em adaptar os sons com uma pegada mais quebrada do hardcore misturada com pós-punk ou folk dos sons. Até agora não tivemos nenhum problema.

 

(Papo Alternativo) Além do La Burca vocês tem outros projetos e trabalhos?

(Amandla R) Eu toco desde 95 no cenário alternativo daqui, e tô na luta sonora autoral desde então. Sou fotojornalista também e desenvolvo ensaios artísticos que envolvam histórias em quadrinhos literárias, entre outros temas. O Lucas toca na Banda Sem Nome, e já tocou em outras bandas daqui, é envolvido desde 2000 com bandas.

 

 

(Papo Alternativo) Por quais locais vocês já realizaram shows além de Bauru?

(Amandla R) Olha, como começamos a tocar há 1 ano, não tocamos em muitos lugares ainda, mas já abrimos pro Cólera em Marília-SP, pro Ratos de Porão em Jáu e também pro Mundo Livre S/A aqui em Bauru. Foram rolês históricos e clássicos, tão na memória e coração. Outro role bem massa aconteceu no começo do ano em Ourinhos-SP com uma banda pós-punk lindona da França chamada “Alarm”. Nesse mesmo dia que tocamos em Ourinhos, havíamos tocado na parte da manhã em Sorocaba-SP, no Girls Rock Camp 2014. Foi uma doidera o corre todo e uma experiência incrível em tocar praquela meninada novinha e concentrada no som. Também tocamos em Lençóis Paulista-SP, em um evento caseiro muito massa que acontece na casa de uma amiga, é uma coisa mais íntima e total faça-você-mesmo.

 

(Papo Alternativo) Como é a cena musical de Bauru? Existem coletivos, shows o rganizados com frequência?

(Amandla R) A cena musical é bem interessante e sinto que está em ascensão nesses últimos três anos. Tem muita banda nova aparecendo e “velhas” se reciclando. Coisa que há cinco anos atrás não acontecia. Esses dias um DJ londrino – da Haggerston Radio – entrou em contato com algumas bandas de Bauru, inclusive com a La Burca e tocou algumas músicas por lá, muito massa isso, atípico de acontecer. Algo está acontecendo por aqui, borbulhando há tempos e que somente agora tem mais visibilidade, talvez pelas facilidades onlines de hoje e comunicação mais urgente. Há bandas de tudo quanto é tipo, garage psicodélico (Bad Mind Tempers), crossover metal-punk (Sociopata), indie (Young Lungs), punk, pos-punk, experimental, industrial, noise, instrumental, teatral… Realmente houve um “boom” de bandas muito legais e alguns espaços se abriram, mas ainda é restrito. Há certa limitação a “cena”. Vejo uma certa falta de interação “fora do bar” – ainda rola certo apego a redutos e nichos, então é necessário muitas vezes criarmos shows e eventos em casa mesmo ou inventar espaços novos além dos “ oficiais”. Existem pessoas envolvidas no cenário há décadas que também fazem acontecer, uma galera old school que sempre lutou muito pela cena. Quanto aos coletivos, já rolaram vários por aqui e no momento creio que alguns estejam se reestruturando, o que é ótimo.

 

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Crédito: Luís Germano

 

(Papo Alternativo) Por quê do nome La Burca?

(Amandla) Eu ainda não sei ao certo se o nome veio de um desenho que fiz, que é a capa do nosso EP, ou se veio primeiro com o som instrumental – feito na mesma época – em 2011. Foi um lance intuitivo, inconsciente, sei lá, veio esse nome “La Burca”, “psicografei” o desenho e dei esse nome ao som e depois pra banda. Talvez haja uma conexão com a violência, o destrato, o esquecimento e a opressão independente do gênero humano.

 

(Papo Alternativo) Como é feito o processo de composição das músicas de vocês? E sobre o que se trata as letras?

(Amandla) Os sons brotam na minha cabeça, vem uma estrofe, um riff…ou uma frase melódica acompanhada de uma batida…e fico com aquilo na mente até gravar no celular a melodia assobiando ou com o violão se tiver por perto. Eu não sei nota alguma, sou autodidata, então tenho que gravar senão esqueço. As letras são sobre a vida, paixões, alucinações, tudo que possa me desesperar ou-emocionar.

 

(Papo Alternativo) Tendo músicas em inglês vocês acreditam que seja mais fácil alcançar o público do exterior? E tendo essas músicas assim no Brasil existe uma dificuldade de divulgação?

(Amandla) Então, esse lance de ser em inglês é consequência das bandas que sempre escutei, e creio que é mais fácil sim algum alcance fora, mas não é por isso que faço músicas em inglês – inclusive temos algumas em português, que logo mais lançaremos. Também misturo algumas letras em inglês e português. Dificuldade no Brasil existe independente da língua.

 

(Papo Alternativo) Como a dupla de vocês é recebida pelas casas de shows? Apesar de quem convive no meio musical já tem consciência de que existem muitos duos formados pelo mundo, ainda assim o mais comum de ser contratado para tocar no segmento rock são bandas formadas por trios, quartetos e quintetos. Isso representa alguma dificuldade para vocês ou nunca tiveram essas dificuldades?

(Amandla) -Pode ser que exista alguma dificuldade por sermos uma banda autoral fora dos padrões tão comerciais, e não por sermos duo. Não vejo por este lado de formato. Acho que a dificuldade das casas de shows é em assimilar sons novos, novas perspectivas musicais. Aí fica tudo padronizado, “higienizado” e repetitivo. Isso é triste porque novos públicos são formados ano-a-ano e muitas vezes nem se ligam que existem outras possibilidades sonoras por aí. Por isso que, entre essas e outras, criamos nosso próprio rolê ou tocamos onde haja mais identificação com a proposta sonora alternativa e independente.

 

(Papo Alternativo) Quais as maiores dificuldades que vocês encontraram na estrada nesse tempo de banda?

(Lucas) Pedágio e gasolina.

 

 

(Papo Alternativo) Como rolou de vocês terem a música “Diário de uma sombra” tocada no curta-metragem Flerte Fúnebre?

(La Burca) Fomos convidados pelo diretor João Francisco Cunha e curtimos o tema e tals. Outras bandas do cenário alternativo de SP participaram também.

 

(Papo Alternativo) Com relação ao vídeo que será gravado para essa música, conta pra gente no que vai consistir as filmagens? Por ser instrumental, fica mais complicado de passar a ideia da música para o público?

(La Burca) Como o próprio nome já diz é sobre o “Diário de uma sombra”, então…é isso. Temas instrumentais são mais subjetivos e climáticos, abertos a inúmeras interpretações, isto é muito interessante e uma constante no nosso som.

 

(Papo Alternativo) Nesse estilo que vocês tocam, eu não conheço, mas quais outros duos brasileiros nessa pegada de vocês que vocês conhecem? Vocês já chegaram a tocar com outras nesse estilo?

(Lucas) Recentemente tocamos com o duo “Muñoz” em festival em Jaú, mas a pegada deles é diferente da nossa. No final de abril vamos tocar com o duo “Que Miras Chicón” de Monte Azul Paulista, mas o som também difere da nossa proposta.
Amandla: Ambos os duos são incríveis e aos poucos vamos conhecendo mais, por exemplo, o Medialunas, outro duo foda, mas cada um tem uma característica única, são singulares nas propostas e sons. E isso é fantástico nessas formações.

 

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Crédito: Giovana Rocha

 

(Papo Alternativo) Quais são os planos do La Burca para o futuro?

(La Burca) Continuar tocando – experimentando novas possibilidades sonoras e de espaço também, e gravar o próximo CD – temos umas 10 músicas prontas e algumas já tocamos nos shows. E estamos procurando algum selo ou gravadora para parceria neste próximo trabalho. Fora a roteirização do vídeo do instrumental “Diário de uma Sombra”, que será lançado provavelmente neste semestre.

 

(Papo Alternativo) Essa última questão é voltada para vocês falarem sobre algo que não tenhamos abordado ou deixar algum recado para a galera que está lendo a entrevista de vocês.

(Amandla) É necessário aproximar mais o público seja da arte, do teatro ou das bandas autorais-alternativas, sem alienação de guetos ou nichos undergrounds – a arte e o suor não podem ficar restritos a bunkers – e não tô falando de carnavalizar a parada. Só deve haver um equilíbrio e vontade de mostrar o que acontece, e não se esconder, ser um “anônimo cool”. E participem do cenário, colaborem com as bandas, compareçam nos shows, comprem as camisetas, os cds, e fortaleçam um movimento musical interessantíssimo que acontece na sua cidade! Formem bandas, toquem e se entendam. Tamo junto no “Baurulho” e além dele!

 

 

As músicas do La Burca para download estão nesse link.

Página da banda no Facebook: La Burca

9 comentários Adicione o seu

  1. Amandla R disse:

    Valeu muito VinnySmashItUp! 🙂

  2. Mariana disse:

    MAO ex vocalista do Garotos Podres gravou uma musica com participação do polemico vocalista Pekinez Garcia (fã de La Burca)da lendária banda punk Excomungados! A musica é Hospícios da banda Excomungados, e tem participação de João Gordo! Aguardem

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