Lítera lança álbum conceitual e concede entrevista ao Papo Alternativo

Por: Vinícius Aliprandino

Lítera por Gabriel Not 2 (1) média

Recentemente a banda Lítera lançou seu disco “Caso Real”. Composto por dois EPs, Marquesa (2013) e Imperador (2014), em 2015, a união desses deram vida a um disco completo.

A banda do Rio Grande do Sul cria suas canções e monta seus trabalhos de maneira conceitual. Para “Caso Real”, os gaúchos buscaram as influências em 94 cartas trocadas entre os amantes Dom Pedro I e Domitila, a marquesa de Santos.

Além da ideia conceitual com a temática dos álbuns do trio, o grupo também utiliza dessa característica para os figurinos em suas apresentações.

“Queremos que as pessoas se sintam ambientadas, climatizadas. Por isso, sempre que temos a possibilidade, colocamos no palco elementos cenográficos que remetem à época”, explica André Neto, vocalista da banda.

Formada em 2007, a banda conta com André Neto (voz e guitarra), James Pugens (baixo), Rodrigo Bonjour (bateria ); e já foi finalista do Festival de Música de Porto Alegre com a canção “Lá Se Foi”. Em 2009 o trio lançou o disco “Um Pouco de Cada Dia”, que foi premiado como melhor lançamento do ano pelo ClicRBS.

Para conhecer melhor a respeito deste trabalho que carrega um grande conteúdo histórico, o Papo Alternativo conversou com André, o vocalista da Lítera. Confiram esse bate papo logo abaixo.

(Papo Alternativo) Olá, André, tudo bem? Primeiramente seja bem-vindo e muito obrigado por conceder essa entrevista ao Papo Alternativo. Pra começar conta pra gente quando vocês começaram e quais são as principais influências da banda?

(André) É sempre uma polêmica interna esse assunto sobre quando a gente começou. hahaha O Rodrigo acha que foi em um ano, eu acho que foi em outro. Mas nós, eu e o Rodrigo, tocamos juntos desde ‘’piás’’, desde adolescentes. A gente se reunia pra tocar na garagem da Dona Marlene, vó dele. O nome Lítera surgiu como temporário, só para a gente participar do Festival de Música de Porto Alegre em 2007 (fomos finalistas) e acabou ficando, então esse pode ser um marco do início da banda.
Falar de influências é complicado também, porque cada um de nós escuta um tipo de música. Não sei bem como ainda, mas tudo isso se junta e dá certo entre a gente. Todos nós gostamos muito do estilo que tocamos. Independente de outros gostos, o gosto pelo rock e pelo pop acaba sendo comum entre nós. O James que é mais do metal, mas quando toca um Raça Negra ou um SPC ele não resiste.

(Papo Alternativo) Criar um trabalho inteiro baseado em uma única temática não é um trabalho nada fácil. Como foi realizado o processo de composição de um álbum conceitual como foi o “Caso Real”?

(André) Foi muito orgânico, a gente não planejou. Ainda que tenhamos pensado ele dessa forma, a gente não tinha um plano. A gente sabia o que queria no final, mas não sabia como ia fazer isso. Foi como fazer uma casa sem uma maquete: sabíamos que queríamos uma casa no final e sabia quantas pessoas iam morar dentro. A partir daí, fomos fazendo a fundação, levantando as paredes, construindo uma peça de cada vez. Foi muito legal ir descobrindo como fazer isso, mas eu não sei uma receita de como fazer. A gente teria que sentar, passar a tarde num café pra eu contar tudo.

(Papo Alternativo) Essa característica de ter um figurino para tocar é algo que vocês sempre tiveram na banda ou desenvolveram a partir de certo tempo? Vocês se inspiraram em algum outro grupo para seguirem essa linha?

(André) A gente não quer só levar um show para as pessoas. A gente quer que elas tenham uma experiência quando forem nos ver tocar. Queremos que as pessoas se sintam ambientadas, climatizadas. Por isso, sempre que temos a possibilidade, colocamos no palco elementos cenográficos que remetem à época. E os figurinos vêm disso, dessa proposta de preparar todo um cenário, um clima, para que as pessoas vivam realmente uma experiência nos nossos shows e saim dali se sentindo melhor do que entraram.

11202124_1032938580102921_5747418277669984067_n

(Papo Alternativo) A ideia é sempre manter essa forma de criar música e se apresentar?

(André) Não. A ideia é não ter uma forma. Antes de sermos um produto musical, somos artistas com individualidades e respeitamos isso. Não queremos ser obrigados a ser algo. Esse projeto de agora, o Caso Real, tá muito enraizado no nosso coração. É orgânico, acho inclusive que é por isso que as pessoas estão se identificando com a gente. É espontâneo e as pessoas gostam disso, porque afinal também são.

(Papo Alternativo) Nessas 94 cartas que você leu para escrever as poesias, o que mais lhe chamou a atenção com relação a essa história entre Dom Pedro I e a Marquesa de Santos?

(André) Acho que foi a urgência do amor que existia na época. Tu tinha uma carta pra enviar, não tinha a oportunidade de errar. Levava tempo pra chegar ao destinatário, tinha que programar o que escrever. Hoje a gente é muito imediatista, então isso me chamou a atenção e me emocionou. Também me fascinou a questão de descobrir que a Domitila foi muito mais que amante. Ela carregou e ainda carrega esse estigma, essa denominação de amante do imperador, mas na verdade essa época foi um período muito curto na vida dela. A Domitila promoveu saraus, ajudou muitos estudantes, patrocinou eventos culturais, enfrentou o machismo, ajudou a enfermaria na Guerra do Paraguai. Enfim, fez muitas coisas louváveis e devia ser reconhecida por isso. Meu objetivo social com o Caso Real envolve isso.

(Papo Alternativo) O amor proibido é um tema abordado nesse trabalho do grupo. Vocês muitas vezes divulgam em sua rede mensagens com foco LGBT. Vocês acreditam que esse tipo de “amor proibido” da atualidade pode deixar de estar nessa categoria em alguns anos?

(André) Alguns bons anos, muitos anos. Não faz muito tempo que começou a se tocar no assunto mais publicamente. As pessoas ainda se incomodam muito com o afeto dos outros, que é o que a gente questiona. As relações homossexuais são sempre menosprezadas e diminuídas. Se é entre dois homens, é nojento; se é entre duas mulheres, é fetiche. Nunca tem aval da sociedade para ser um relacionamento romântico, de amor e carinho entre duas pessoas (que é o que é). Isso ser incômodo pra alguém é absurdo. Recentemente a gente teve um beijo gay com um pouco mais de pegada numa novela e chocou, virou o assunto da semana na internet. E isso me assusta. Ainda tá caminhando. Vai acontecer, mas vai levar um tempo.

(Papo Alternativo) Como está sendo a receptividade do álbum de vocês? O que vocês mais têm ouvido por parte da crítica e do público da banda?

(André) Tem sido ótimo, melhor do que a gente esperava. A gente realmente não sabia o que viria. É um disco bastante diferente do primeiro, mais aberto, mais pop. É um estilo que a gente ouve muito, gosta muito. A gente não pensou o disco como um produto pro mercado e sim como um produto artístico genuíno nosso, que reflete o que a gente tava sentindo. Tocamos num assunto delicado, com canções escritas no feminino, então nos surpreende muito e nos deixa muito felizes que esse disco está sendo bem recebido, com muitos elogios. As pessoas começam a seguir a gente, a compartilhar, se tornam realmente voluntários da divulgação do projeto. Dizem que vão mostrar pra todo mundo e isso pra nós é fantástico, porque somos uma banda independente, precisamos muito dessas pessoas. Para se conectar com o público, precisamos falar a língua dele, e acho que isso tá acontecendo.

(Papo Alternativo) Em 2007 a Lítera foi finalista do Festival de Música da natal Porto Alegre com a música a “Lá Se Foi”. O que representou para vocês conseguirem, com apenas um ano de banda, chegar tão longe em um festival? Isso serviu de inspiração e ajudou a banda a ter um alcance maior de público?

(André) Não dá pra dizer que não significou. Na época foi um empurrão, uma motivação pra gente gravar o nosso disco. Um dos critérios do festival era não ter disco gravado e o “Um Pouco de Cada Dia” acabou saindo só em 2009. Posso dizer que não mudou muita coisa em relação ao púbico, mas foi um aval que a gente precisava na época e nos fez enxergar que tinha gente que poderia gostar das nossas músicas.

12642500_1061111983952247_7649044395500369794_n

(Papo Alternativo) E agora quais serão os próximos passos da Lítera?

(André)
Agora eu estou participando do programa Batalha dos Cozinheiros, que passa na Record toda terça-feira às 22h30 e no Discovery Home and Healthy toda sexta-feira às 21h40. Então quando acabar as gravações vamos retomar a turnê, que começou em SP. A gente quer fazer todo o Brasil, levar esse trabalho para o maior número de pessoas possível. Nossa pretensão é focar no mínimo uns dois anos no Caso Real, pra levar essa experiência para todo o país. Estamos tentando angariar patrocínio agora pra conseguir circular.

(Papo Alternativo) André, a entrevista está chegando ao fim. Obrigado mais uma vez por conversar com o Papo Alternativo. Desejamos sucesso a Lítera e que possamos realizar outras entrevistas futuramente. Essa última questão é reservada para você dar um recado ou falar sobre algo que não tenha sido abordado durante a entrevista.

(André) Quero agradecer a esse espaço em que a gente pode trocar uma ideia legal e também pedir para que as pessoas que se identificarem com a gente ajudem a divulgar a banda. Elas são as multiplicadoras de todos os artistas independentes, não só da Lítera. Peço para que apoiem a cena e acessem sites como esse, porque essas é que são as fontes que realmente mostram o que tem sido produzido no Brasil. A gente sabe que a grande mídia mascara e mostra só o que ela quer. Então esses sites são muito importantes para que a gente saiba que o nosso país tem sempre artistas novos na cena e que são ótimos.
Ah, e também podem pedir stickers pra gente! Realizamos uma intervenção urbana de colar adesivos com a frase “Você já viveu um amor impossível?” pelos postes, muros e tapumes das cidades. Se encontrar com algum pelo teu caminho, posta com a #CasoReal que a gente reposta no nosso Instagram (@literarock). E se quiser ajudar a gente a espalhar amor por aí, manda mensagem que a gente te envia uns bem bonitos e coloridos.
E aos fomentadores culturais: queremos circular pelo Brasil! Tamo com o pé que é um leque! Dale!

Confiram o álbum “Caso Real” e conheçam mais sobre a Lítera nos link abaixo.

 

Facebook

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s