The Upperground prepara lançamento de novo disco e conversa com o Papo Alternativo

Por: Vinícius Aliprandino

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Velocidade, emoção, agressividade e vontade – estas são quatro palavras que podem ser usadas para descrever o Hardcore. O estilo musical e movimento que muitas vezes vêm acompanhados de engajamento social e político, que, no Brasil, resiste ao tempo, se renova, e, virando o jogo, vem se fortalecendo a cada dia mais. Não fugindo a regra, o The Upperground lista em suas qualidades as quatro palavras do início do texto.

O grupo paulistano é formado por Pedro Spadoni (vocal), Ivisen Lourenço (guitarra), Danilo Pirola (guitarra), André Spadoni (baixo) e Johnny Vignoto (bateria) e teve seu início em 2009. As canções, ensaios e apresentações são uma mistura de diversão e seriedade.

O início a banda se deu entre tacadas em uma mesa de sinuca, no bairro do Tatuapé, São Paulo. Os amigos Pedro Spadoni, Ivisen Lourenço e Ruivo (ex-membro), além do gosto em comum pelo jogo, também possuíam o apreço pelo Hardcore Melódico. As influências vinham das canções do Much The Same, Garage Fuzz e Pennywise, o que os levou a montar a banda. Um ano depois, o irmão de Pedro, André Spadoni também entrava no grupo.

A gente ficava andando de skate, às vezes nem tocava direito, só se divertia. Até porque a gente ensaiava em cima do galpão do meu pai, ali na Mooca (Zona Leste de São Paulo), e tinha o tempo que quisesse. A gente começou tocando na cozinha, aí passamos para um quartinho onde ficava tudo: a bateria montada toda pixada; e uns papelões e uma porta também tudo pixado“, conta o vocalista Pedro Spadoni.

Com as apostas nas letras em inglês e na música autoral, o grupo lançou seu primeiro álbum – First Floor – em 2015. O disco foi gravado no Estúdio Aurora, São Paulo, e devido a qualidade e satisfação pelo trabalho concluído, a banda seguiu se aprimorando para cada vez mais ter um lado mais profissional.

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Com o empenho, a The Upperground ganhou dois membros – depois da saída de Ruivo. Entrava para a banda Johnny Vignoto e Danilo Pirola, na bateria e guitarra base, respectivamente. As amizades em comum do tempo do colégio, ajudaram na integração dos membros. Com novas caras no grupo, a banda passava a ter outras referências, sem deixar de lado as antigas. Somadas ao som do grupo paulistano, passavam a estar, influências de Ramones, Bad Religion, Propagandhi e Pantera.

Percebendo as necessidades e as dificuldades, que a cena independente enfrentava para conseguir se organizar e movimentar, o grupo decidiu investir em um outro projeto. Daí nascia a Festa Hardcore. O objetivo do festival consistia (e ainda consiste) não apenas em oferecer um espaço, de fácil acesso, para as bandas e o público, mas  também trazia a ideia de misturar shows com sets de Hardcore e Punk, acompanhados da exibição de mostras de fotografias.

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Crédito da foto: Ludmila Lower

Com tudo isso, a banda vem conquistando cada vez mais espaço na cena e já se prepara para o sucessor de “First Floor”. E como é umas fórmulas e armas do Hardcore, o novo álbum virá com a temática focada na situação política atual do país. O front  de combate da The Upperground vem, ainda mais do que em seu “First Floor”, combinando a militância com as guitarras distorcidas, linhas de baixo envolventes, batidas rápidas e composições elaboradas.

Aproveitando esse momento que a banda vive e se prepara para explorar ainda mais, o Papo Alternativo conversou com os integrantes da The Upperground, em uma entrevista na qual, nos contaram um pouco mais sobre suas ideias, influências, planos, a Festa Hardcore, o novo álbum, entre outros assuntos também interessantes. Confiram essa agressividade sonora, mesclada a um conjunto de ideias positivas logo abaixo.

Crédito da foto: Ludmila Lower

(Papo Alternativo) Olá, pessoal da The Upperground. Primeiramente, muito obrigado por conversar com o Papo Alternativo. Pra começar conta pra gente como vocês tiveram a ideia de formar a banda e como isso foi crescendo ao longo do tempo?

(Ivis) Fala, galera! Nós que agradecemos ao Papo Alternativo por sempre apoiar as bandas independentes!

(Pedro) Cara, a banda nasceu em um boteco “pé sujo” de sinuca, junto com uma vontade de juntar os amigos pra se divertir, fazer HC autoral e andar de skate. Essa essência a gente mantém até hoje. Inclusive os botecos “pé sujos”.

(Ivis) A diferença do começo para hoje, pra falar a verdade, é que a roda de amigos foi crescendo e fomos levando as ideias mais a sério! O comprometimento mudou, mas ainda prezamos pela diversão, porque sem ela, não vale a pena. A ideia é fazer algo que junte pessoas com ideais parecidos.

(Papo Alternativo) Com relação as influências, vocês escutam bandas como Much The Same, Garage Fuzz e Pennywise, desde garotos. Além dessas quais são as influências? E além do Garage, existe mais alguma banda brasileira que vocês têm como influência?

(Ivis) Escutamos de tudo e temos influências bem distintas no rock. Ouvimos desde os clássicos até o trash. De Led Zeppelin até Pantera, etc. No Brasil tem muita coisa que ouvimos: Garage Fuzz, Dead Fish, Ratos de Porão, Nitrominds, Sepultura, Paura, Matanza, Gritando HC e as saudosas A-OK, Street Bulldogs… por aí vai. Todas essas bandas nos influenciaram de alguma forma.

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(Papo Alternativo) O Hardcore tem geralmente um engajamento, uma veia politizada muito forte. Com vocês também acontece dessa forma?

(Ivis) Acho que é bem natural do som também, né? Nosso primeiro álbum tem músicas com temas substancialmente políticos, por exemplo: Black Sheep, Voiceless e Promisses and Deals. Mas não falamos somente de política. Falamos sobre a sociedade de maneira geral. Nossas letras tratam e questionam os padrões impostos por nossa sociedade.

“And once in your life
You will face
And once in your life
You will face the failure
If it’s to bring this shit, then stay away
Don’t throw on me false ideologies”
(Black Sheep – The Upperground)

(Papo Alternativo) Muitas bandas apresentam essa veia política, mas muitas também não tem isso como temática dentro da música. Na atual situação do país e do mundo, como vocês vêem essa temática sendo desenvolvida dentro, não só do Hardcore, mas da própria cultura Punk? Vocês acreditam que as formas de abordagens poderiam ser outras, que o estilo tem tido uma carência disso?

(Danilo) Acreditamos que essa veia política seja o ponto principal, até porque é um dos maiores pilares do gênero. Mas, por outro lado, entendemos que é absolutamente normal que outras prefiram tratar de outros pontos. É uma questão particular e varia de banda para banda. A “Cultura Punk” expandiu muito desde o seu início.
Quanto à segunda pergunta: as letras de protesto com viés político são fundamentais, mas deve haver espaço para as outras temáticas também. Acredito que seja um erro pensar que todos os problemas se centralizam na política. Nós, como sociedade, temos uma parcela de culpa enorme em quase tudo que criticamos. Aí é que entram estas outras temáticas.

(Pedro) A questão é que antes o rock já tinha uma postura radical de contestação só pela sua estética e chocava pelo visual e barulho, mas hoje em dia esses extremismos são até parte da moda. Não existe mais esse choque. Lembra daquele lance da Lady Gaga usando vestido de carne? É toda uma cultura construída na base de chocar pra chamar a atenção. Então, você tem que contestar de outro jeito, com conteúdo e atitudes reais de mudança. Mas aí entra uma questão importante: pra ter mudança real, precisa ter união. E é isso que tem faltado demaaaais na cena. O rock no geral tá muito desunido.

(Ivis) De maneira geral o rock tá bem quieto, não acha? O rock tá passando por um momento turbulento em um contexto onde as bases e valores da sociedade mudaram. Tome o exemplo das relações humanas e a integração das redes sociais. Olhe o cenário político e etc. O punk/hardcore acaba não sendo mais o mesmo. Quem conhece sabe que exige ousadia e em um mundo de “bundas-moles” na vida e “corajosos na rede”, fica difícil. Como conseguir resgatar os valores que iniciaram o movimento e adequarmos isso as novas realidades? Estamos participando da busca dessa resposta.

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Crédito da foto: Ludmila Lower

“What you think is what you really want?
The war for domination is more and more invisible
Have you met someone affected by the last plagues?
The war for domination is more and more invisible”
(Invisible War – The Upperground)


(Papo Alternativo) O foco do novo álbum de vocês vai cutucar bem essa ferida do assunto “política”. Conta pra gente um pouco mais sobre esse trabalho.

(Ivis) Vem sim, não tem como não falar! Todo dia é um tapa na cara e está na hora de revidar! Mas o novo álbum não virá falando só de política. Neste os questionamentos sociais serão mais agressivos, isso podemos garantir.

(Papo Alternativo) Vocês tem alguma previsão de lançamento?

(Ivis) Estamos no processo de criação ainda. Nós temos algumas musicas prontas e até colocamos algumas delas no set dos últimos shows. Ainda não temos um disco completo. Falta pouco! Esperamos lançar ainda no primeiro semestre.

 

(Papo Alternativo) Com o passar dos anos, muitos quilômetros de estrada, entre outros fatores, as bandas vão ganhando experiência e isso reflete nos trabalhos recentes. Sendo que no “First Floor”, vocês já demonstraram muita qualidade e técnica, quais as mudanças que o público pode esperar para esse novo trabalho de vocês?

(Ivis) Agressividade! Essa será a principal mudança. Temos uma preocupação especial em relação às melodias e arranjos que não irão mudar. Só que um pouco mais de agressividade traduz o nosso momento atual.

(Papo Alternativo) Vocês são os organizadores do “Festa Hardcore”. Explica pra gente como surgiu essa ideia, quais os rumos que ela tem tomado e as conquistas?

(Pedro) É um pouco do lance de tentar encontrar um papel nessas mudanças, saca? Se a gente vem sentindo desunião na cena, tentamos criar um espaço pra agregar. A festa tem como foco colocar bandas de hardcore pra tocar juntas num espaço legal pra galera que curte, mas também juntando tudo que é periférico ao som. Na última a gente botou uma expo da Lud Lower (parceiraaaaça!) que traz uma reflexão sobre a sexualidade feminina.

(Ivis) As principais conquistas que tivemos na primeira edição com certeza foram de estreitar relações, fortalecer e criar novas amizades! Encontramos e juntamos pessoas que estão envolvidas com os mesmos valores que a gente e isso nos traz uma satisfação enorme. Queremos fazer mais com certeza!


(Papo Alternativo) Onde costuma rolar o festival, quem apóia e quais bandas já passaram por ele?

(Ivis) Nossa primeira edição foi aqui em SP e rolou lá na Jai Club, na Vila Mariana. Contou com Rawfire, Analog, La.Marca e a gente (rsrs). Tivemos apoio das produtoras Fusa Records e Mundo Alternativo, que tiveram papel fundamental para conseguirmos criar este espaço. São dois grandes exponentes que têm grandes pessoas por trás. Dividimos os mesmos valores, estamos todos no mesmo caminho e por isso deu tão certo.

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(Papo Alternativo) Muitas bandas que estão na estrada a mais tempo costumam ter aquele saudosismo com relação a forma que a cena se dava antigamente. Na cena atual existe uma busca, um resgate por essas atitudes, ou a cena está diferente e buscando novas formas de se manter e crescer, ou então existe uma mescla de tudo isso? Qual o olhar de vocês sobre o cenário underground e independente no que precisa melhorar e o que vocês percebem que tem melhorado nos últimos anos?

(Ivis) Acho que existe uma mescla, mas a maior parte ainda está buscando voltar ao passado. Não sabemos exatamente se este é o caminho. Como falamos, a questão é: como conseguir resgatar os valores que iniciaram o movimento e adequarmos isso às novas realidades? Tem coisas que não irão mudar mais, mas existem outras que precisam de aprimoramento e evolução.

Nem tudo são coisas ruins. Todas estas mudanças trazem oportunidades positivas também. Veja. por exemplo, a quantidade de bandas que tem oportunidade de lançar uma musica hoje, de mostrar seu som e a diversidade que isso gera para o cenário. Isso é uma melhora absurda em relação ao passado, não tem como negar.

(Danilo) As bandas mais antigas enfrentaram algumas dificuldades que as mais novas nunca enfrentarão. Isso é inegável e vejo como uma coisa positiva este saudosismo. Na cena atual, também penso que exista uma mescla. Mas impressão atual, sem dúvida, é que, mesmo com todas as dificuldades, antigamente era melhor.

Talvez isso seja explicado pelo fato de que não precisa mais enviar carta aos responsáveis para adquirir os álbuns das bandas, para agendar os shows, turnês, etc. pode ser que a facilidade gerada pela internet, tenha “desvalorizado” a cena.

A geração que começou a ouvir música na “era do MP3”, não tem a mesma visão que os mais antigos sobre o cenário underground e independente.

Resumindo: o que melhorou nos últimos anos foi a facilidade do acesso que a internet proporcionou para os envolvidos na cena em buscar as músicas, as informações, etc. O que piorou foi o fato de que essa facilidade deixou tudo bem mais efêmero, superficial e transitório. É um paradoxo. Nós teremos que aprender a lidar com ele, e se possível, tentar resolvê-lo.

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Crédito da foto: Ludmila Lower

(Papo Alternativo) Além do novo álbum, quais os planos da The Upperground para 2017?

(Ivis) O foco principal é o álbum, com certeza. Além disso gostaríamos de expandir a “Festa Hardcore”. Temos amigos no litoral, interior e outros estados (Goiânia e Santa Catarina) que faz tempo que não vemos (rsrs). Tem muito lugar pra tocar e andar de skate ainda.

(Papo Alternativo) Galera, a entrevista está chegando ao fim. Muito obrigado por terem batido esse papo alternativo com a gente. Desejamos muito sucesso, muita estrada pra vocês. essa última questão é reservada para vocês deixarem algum recado sobre algo que não tenha sido abordado durante a entrevista.

(Ivis) Novamente agradecemos pela oportunidade que sempre dão as banda independentes. Vamos em frente, que ainda tem muito chão, muitas bordas pra andar de skate e muita gente pra conhecer nesses rolês. Paulada no olho e “Vai Caraiii”!

(Danilo) Agradecemos a vocês pela chance de falar sobre o que falamos aqui. No momento que vivemos, é de suma importância.

(Pedro) Quando a gente fala de união, estamos falando de tudo que envolve a cena, e vocês são parte importantíssima disso! Valeu demais pelo espaço e pelo trabalho. Acho que o recado que fica é que se a gente não fizer, ninguém vai fazer. É uma cena independente que só vai sobreviver se existir vontade em cada um que faz ou quer fazer parte dela. Yau! Valeu mlks 🙂

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Crédito da foto: Ludmila Lower

 

Confiram o álbum “First Floor” nos links abaixo e acompanhem o trabalho da The Upperground através do site e página oficial da banda no Facebook .

 

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