S.E.T.I. revela truques do machismo enrustido em “O Ilusionista”

Por: Vinícius Aliprandino

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Após dois anos sem lançar nenhum trabalho, o duo S.E.T.I. traz uma canção carregada de crítica ao machismo e revela a identidade de outro mágico mascarado. O nome da música? “O Ilusionista“.

Entretanto, a ideia da canção não diz respeito única e diretamente àquele machismo estampado, com homens sendo visivelmente estúpidos, agredindo fisicamente ou expondo a mulher ao ridículo. Ela vai mais além. Mostra o preconceito enrustido, escondido nas entrelinhas, mais presente no dia a dia do que podemos enxergar sem nossa análise detalhada e lupa social. Mas ele está lá, feito uma bactéria não vista a olho nu.

Em “O Ilusionista“, a dupla de Synthpop formada por Roberta Artiolli e Bruno Romani, fala daquele machismo praticado pelos “homens de bem”. Aquele travestido de bom moço, e que, muitas vezes pratica sem saber, ou que diz não saber, por influência do círculo social, da rodinha de amigos e seus comentários “inocentes”.

Assim como um ilusionista, o homem tratado na canção, faz truques. Encena, distorce, enfeita e engana. Faz parecer que faz as escolhas para a mulher, como se estivesse praticando o bem pra ela. Alegando a incapacidade da parceira, namorada, conhecida, desconhecida, esposa, amiga, mãe, avó, colega, de saber o que é melhor pra ela.

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Este Mister M – não o famoso ilusionista que revelava os truques de sua profissão na TV e gerava altos números na audiência para algumas emissoras – mas sim aquele M de machismo, segue presente em nossa sociedade, encantando com seus macetes e fazendo parecer o que não é. E é nessa ferida que a S.E.T.I., não apenas cutuca, mas joga sal e faz arder.

A música traz pra fora e chama pro debate, mas ao jeito S.E.T.I. de ser. A letra é ácida e a canção sutil. Vem embalada pela voz e sintetizador de Roberta Artiolli, pela guitarra e baixo, encorpados de Bruno Romani. A canção se desenrola, e juntamente com a letra cantada, a cada verso, aumenta a vibe, caminhando para um final extasiante.

“Se com tudo o que as mulheres fazem e representam atualmente ainda há quem permaneça a subjugar, então que nós falemos exaustivamente a respeito”, comenta Roberta Artiolli

 

A faixa foi gravada, mixada e masterizada por Alexandre Pereira no Zastrás Áudio em março deste ano. A produção recebe os créditos de S.E.T.I. e Alexandre Pereira.

Para falar mais sobre o tema da canção, a banda e outros assuntos como estrada, novo disco e novidades, batemos um papo alternativo com Roberta e Bruno. Confiram logo abaixo!

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Crédito da foto: Andresa Marques

(Papo Alternativo) Contem pra gente um pouco sobre a temática da “O Ilusionista”.

(Roberta Artiolli) A música fala sobre o machismo velado que existe nas relações mais íntimas das mulheres. Aquele que vem do próprio parceiro, que tenta roubar a vaidade da mulher por ciúme, que tenta fazê-la se sentir inadequada quando ri, quando dança, quando fala. Aquele que tenta minar a auto-confiança dela para melhorar a dele.

(Papo Alternativo) O machismo, apesar de ser um tema muito debatido, tem muita força na sociedade e com os anos, parece crescer ainda mais. Vocês acreditam que talvez, pelo fato da mulher decidir bater de frente, decidir ocupar o espaço que lhe é direito, aflora ainda mais esse sentimento, que é enrustido na sociedade, e que o homem parece não querer perder tais “privilégios”?

(Roberta Artiolli) Sem dúvida. É como um remédio amargo. Enquanto a sociedade precisar toma-lo vai haver choro e esperneio. Mas é cada vez mais urgente falar sobre isso. Se com tudo o que as mulheres fazem e representam atualmente ainda há quem permaneça a subjugar, então que nós falemos exaustivamente a respeito.

(Papo Alternativo) A respeito do machismo enrustido. Essas atitudes também se escondem nas entrelinhas de várias relações e passa despercebido – devido aos costumes, conformismo e comodismo – mas de uma maneira, que prejudica a mulher. Muitos talvez não tenham a consciência de que são machistas. O que vocês pensam a respeito? Qual a reflexão, seguida de prática, que deve ser feita/tomada?

(Roberta Artiolli) Acho que os homens que têm a minha idade hoje ainda carregam uma educação machista, seja porque eram poupados de ajudar com tarefas de casa seja porque alguém os ensinou assim. Mas o que percebo é que há um movimento em busca de mudarem isso. Há uma percepção de que todos somos iguais e dividimos direitos e deveres em todos os ambientes. Mas esse tipo de pensamento ainda encontra resistência em muitas famílias, em muitas novas famílias, nas quais a mulher aceita ser apenas a dona de casa e o cara o provedor. Isso pode até funcionar para os dois lados, mas, na maioria dos casos, vejo uma forma de perpetuação do machismo, com o cara ditando as regras e minando a confiança feminina. Acredito que as mulheres devem viver como quiserem, mas jamais deixarem se apagar.

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Crédito da foto: Andressa Marques

(Papo Alternativo) O que o público pode esperar do novo disco da S.E.T.I.?

(Bruno Romani) O disco caminha para um conceito de que tudo está amarrado, de que qualquer ação tem algum resultado em algum lugar do universo. E isso deve impactar na construção de timbres, melodias e arranjos. Nessa ideia de conexões, vamos turbinar nossos elementos mais conhecidos para tentar encontrar o equilíbrio por meio dos extremos. Onde for rock, será mais rock. Onde for eletrônico vai ser mais eletrônico. Em termos sonoros, as partes mais contemplativas também devem ser mais profundas.

(Papo Alternativo) E a estrada? Vocês já tem em mente quando devem começar a divulgar o trabalho?

(Bruno Romani) Não. O que podemos dizer é que temos feito alguns shows neste ano com o objetivo principal de testar sons novos. E isso é muito legal porque a gente não sabe o que vai entrar no disco ou não. Se os seus leitores tiverem a chance de nos ver esse ano, irão assistir aos nossos shows mais imprevisíveis e abertos, com pouquíssima coisa antiga. Indico muito!

(Papo Alternativo) Foram dois anos sem lançar música nova. Vocês cuidaram de espalhar a música da S.E.T.I. por aí nesse período. Conta pra gente o que mudou nesse tempo, e quais os aprendizados e conquistas da S.E.T.I.?

(Bruno Romani) Vamos falar o que não mudou: ainda somos uma banda independente que rala muito, que investe muito tempo e suor para fazer tudo acontecer. E isso é o principal. As coisas que mudaram são consequência disso: conhecemos mais gente e mais lugares e encontramos novas fronteiras sonoras. O que aprendemos é que mesmo com todo esse esforço e essas novas fronteiras, o principal é que a gente esteja feliz tocando.

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Crédito da foto: Rodrigo Gianesi

(Papo Alternativo) Em alguns dos shows que a S.E.T.I. realizou no ano passado, um baterista estava auxiliando. Vocês pretendem manter essa formação para as próximas apresentações ao vivo?

(Roberta Artiolli) Em 2017, com certeza não. Estamos num período criativo que precisa ser só nós dois, especialmente porque estamos sentindo as músicas novas. O terceiro elemento poderia acabar criando uma espécie de filtro e atrapalhar. Mas, isso não significa que no futuro isso não possa se repetir, pois o nosso som permite isso. Tivemos alguns shows bem legais com batera, então, porque não repetir? E isso pode valer para qualquer instrumento. Quem garante que no futuro a gente não possa ter alguém na guitarra ou na tuba?


Confiram “O Ilusionista” no link abaixo e acompanhem o trabalho da S.E.T.I. através da página oficial da banda no Facebook.

 

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