Entrevista – Chuva de sentimentos dá vida a “Gato Bravo”, de Firgun

Por: Vinícius Aliprandino

Firgun por Diana Santos TMZ Produção
Foto por Diana Santos / JMZ Produção

Ao longo de 2019, o cantor e compositor português Lécio Dias, lançou vários singles, que quase no final do ano, integrariam, juntos de outras canções, seu disco “Gato Bravo”.

O Papo Alternativo realizou algumas matérias, neste período, mostrando os trabalhos do artista, no suspense de “Só Por Mim“, na catarse libertadora de “O Algodão” e na expectativa e saudade de “Setembro“.

Em cada um deles, Firgun explorou a arte de uma maneira cativante, ora através do que parece ser melancolia, mas que de acordo com o cantor é na verdade, puramente romance; e ora pelas sensações de liberdade. Ao mesmo tempo, as músicas voavam entre desespero e tristeza, passavam pela ansiedade na espera de alguém; chegando na catarse do amor.

Além de “Gato Bravo“, Firgun tem outro álbum em sua bagagem. “Magnólia“, todo cantada em inglês, mostrando outra fase do artista, apresenta 8 canções carregadas de mensagens favoráveis a generosidade e a simples. Pensa no bem estar do outro e se coloca distante da inveja e do ciúme.

Nesta nova fase, “Gato Bravo” mostra Lécio utilizando mais de seu próprio idioma, As canções são cantadas em português e buscam uma proximidade maior com seu país. A princípio, o cantor sentiu certa dificuldade em compor em português, porém, aos poucos foi pegando o jeito e encontrou o caminho, dando vida a um disco recheado de canções em seu idioma.

 

Firgun
Foto por André Crujo

 

Sentimentos

Gato Bravo” – o álbum completo, assim como seus singles lançados anteriormente, mostra, junto de outras canções que chegam, não apenas para somar, mas sim para multiplicar em seu trabalho, um conjunto encorpado, de grandiosa qualidade, com atenção aos detalhes, que passam pelas notas, pelos elementos das canções e chegam até a capa do disco.

A arte, captada pelas lentes da câmera de Svita, mostra a fotografia do lado de fora,da parte dos fundos de um prédio, com janelas, escadas e um homem limpando o chão. Tudo isso simbolizando um dia de céu nublado, em referência à solidão, imprecisão entre outros sentimentos, que o álbum busca e transmite, em cada uma das faixas.

Do começo ao fim, através do disco, é possível perceber, passeando pelos instantes de gingado e alegria, de calmaria e tristeza; o mistério, o suspense, a euforia, a felicidade, o romance, a solidão, o desespero, a renovação e, por fim, a liberdade de quem rompe com algemas e amarras que prendem e impedem de viver.

 

Parceria em “Gato Bravo”

Gato Bravo” nasceu da parceria de Firgun com o produtor musical Tiago Meirelles. O local de gravação foi a casa do próprio Lécio. A produção, mixagem e masterização do álbum ficaram a cargo de Tiago, enquanto que Firgun assina a coprodução do disco.

Na música “Só Por Mim”, Lécio contou com a participação do músico Bernardo Costa, que ficou responsável por dar vida ao piano.

O disco é composto por 8 faixas: “Ginge”, “O Algodão”, “Só Por Mim”, “Atossicar”, “A Balada do Rei do Desassossego”, “Setembro”, “Ditirambo” e “Abstração”.

Para falar a respeito do álbum, da carreira e dos planos futuros, o Papo Alternativo realizou uma entrevista com Firgun, que você pode conferir logo abaixo.

 

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(Papo Alternativo) Olá, Lécio. Primeiramente, muito obrigado por conversar com o Papo Alternativo. Queria que você começasse a entrevista falando um pouco sobre seu trabalho. Quais são suas influências musicais e porque escolheu o nome Firgun para ser o nome de seu projeto?

(Firgun) Olá, Vinícius! Eu é que agradeço a oportunidade de poder falar sobre aquilo que faço. O meu trabalho enquanto músico leva já uns bons anos. Desde a formação clássica em contrabaixo até à minha anterior banda (Limbus), desenvolvi imensos projetos; diferentes e opostos, o que me conduziu a esta mentalidade “experimental” com a qual abraço o meu atual projeto (Firgun).

Firgun é (em hebraico moderno) o sentimento de orgulho, satisfação e prazer pelo sucesso e bem-estar dos outros. Mencionei o experimentalismo com o qual abraço este projeto, pois assumo diversos estilos: Desde o “Lotus…” (onde assumi o corpo folk), ao “Magnolia” (onde fugi para o pop alternativo) e até ao “Gato Bravo” (onde me defini no indie-pop). As limitações técnicas obrigam-me a desenvolver a criatividade e a aprimorar o meu método de composição e escrita.

No que toca a influências, há sempre a genialidade de “The Doors“, “The Cure“, “The Smiths“, “Joy Division“, “Jeff Buckley“, “Damien Rice“, “Leonard Cohen” e “Tom Waits“, entre outros… Mas (recentemente) é importante valorizar o peso do hip-hop português e da música alternativa portuguesa para com o meu trabalho.

 

(Papo Alternativo) A capa do álbum “Gato Bravo” mostra os fundos de um prédio, mostrando as escadas que dão para cada um dos andares. Parece até a visão de um morador de outro prédio. As vezes até mesmo uma vista de uma janela de outro apartamento, que ao fundo teria embalado as canções do seu disco e que seria trilha da vida do personagem das suas canções. O que você procurou transmitir com a capa?

(Firgun) A fotografia genial que concede a entoação artística à capa do meu álbum é da autoria da Svita (a enorme artista que me tem presenteado com o seu trabalho magnífico, permitindo-me desenvolver todo um simbolismo em torno dos meus temas).

A fotografia foi escolhida com uma vontade expressa: encarregar o ouvinte de visualizar um contexto físico e (se me permitires) próprio, caracterizador desse mesmo golpe criativo.

Um dia cinzento, depressivo, impreciso e caótico, lamentavelmente conduzido à solidão e à única vontade celestial de criar e compor (em casa); no mais alto covil de todo o lobo selvático… Criar no meu espaço aquilo que pertence ao exterior. A solidão é a presença mais assídua ao lado de todo o artista.

Criar sozinho é recriar-me num espaço de maior insignificância do que toda a minha definição.

 

 

 

 

(Papo Alternativo) Fala um pouco sobre o nome do disco “Gato Bravo”. Qual o significado do título?

(Firgun) Ao contrário do que muitos amigos e fãs me têm dito, o nome do álbum não tem um significado tão poético quanto pensam. Eu tenho (por hábito) a vontade de tocar piano (tardiamente) em alguns espaços que me acolhem pela amizade. E surge em mim a tendência de dar esses pequenos concertos intermitentemente; sem planejamento.

Acontece que alguns ocorrem da uma da manhã até às duas, por exemplo, saindo dos espaços aquando do término desses mesmos concertos. Um dia, um bom amigo afirmou: “Lécio, já não te via há imenso tempo! Pareces um gato pardo… Surges do nada, tocas e desapareces. E não te voltamos a ver tão cedo!“.

Engracei com esta opinião e, como existe um projeto local com o nome de “Gato Pardo”, decidi abordar o nome do álbum com a bravura que me define… (Bravo como independente e destemido… Capaz de arriscar sozinho; pela minha arte). E assim surge o nome “Gato Bravo“.

 

Capa
Foto por Svita (@aarcticc.mermaid)

 

(Papo Alternativo) A primeira faixa, “Ginge”, vem só em instrumental e ela parece mostrar a que o álbum veio. Cada uma das canções do disco traz um ar de suspense e melancolia. Essa foi realmente a ideia?

(Firgun) Eu lembro-me perfeitamente da noite em que defini o alinhamento final do álbum. Ouvia um dos meus álbuns favoritos, “Clube Da Esquina“. Enquanto escutava Milton Nascimento (respeitosamente), alinhava aquela que seria a ordem dos meus temas.

Todos os temas que desenvolvi (para este álbum) carregam aquilo que melhor me define; a negatividade e a dissonância. A capacidade cíclica de reinventar as minhas depressões e as minhas crises existências, romantizando-as, infelizmente, para a minha melhor definição. Só faz sentido se assim for o amanhã. Um espaço-tempo contextualizado, num romance mercantil (para os outros) e numa desgraça (já vivida e queimada) para mim. Sofro demasiado o amanhã. Aliás, todo o álbum fala sobre esse “sofrer” que vem de longe e que nunca mais acaba.

Não é um álbum melancólico. Acaba por ser um álbum romântico para quem o ouve (objetivamente), mas um álbum culposo para quem me ama (subjetivamente). Um amor inconstante; não por culpa dos outros, mas pela minha insegurança compromissiva. Só me falta confiar. Assim se define o “Gato Bravo“: é um álbum que conduz o ouvinte a romantizar-se, mas que se concretiza (efetivamente) numa solidão lacunosa por culpa da minha falta de compromisso para com as minhas vontades.

 

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Arte por Svita (@aarcticc.mermaid) / Design por @ripinpaivas

 

(Papo Alternativo) Lécio, gostaria de propor uma breve descrição de cada uma das canções. Porém queria que você as definisse em 3 palavras cada uma.


(Firgun)

“Ginge” – Arrepiante, trémula e emergente.
“O Algodão “- Revoltosa, inovadora e frustrante.
“Só Por Mim” – Comercial, inventiva e confiante.
“Atossicar” – Solitária, repressiva e graciosa.
“A Balada Do Rei Do Desassossego” – Sexy, fresca e provocadora.
“Setembro” – Apaixonada, compromissiva e aliciante.
“Ditirambo” – Decadente, infeliz e incompreendida.
“Abstração” – Concretizadora, imperativa, sofrida.

 

(Papo Alternativo) Em que você busca inspiração para suas canções?

(Firgun) Não nas minhas experiências autônomas, mas nas experiências que os outros me oferecem. Nessa vivência comum que tanto me consome, mas nunca sem perder o carácter acolhedor.

 

 

(Papo Alternativo) Muitas das faixas do disco trazem uma melancolia gritante. Você enxerga, na música, uma forma de canalizar seus sentimentos e, ao mesmo tempo, consegue exorcizá-los?

(Firgun) Por muito que gostasse de dizer que sim, não me é possível exorcizar os meus sentimentos através da minha criação artística… Limito-me a recolher sensações/emoções e a desconstruir o seu conteúdo; por mais incongruente que este seja.

Há temas que me custam a interpretar por força da carga emocional que transportam. São tão meus que eu não os quero para mim, daí a necessidade de exteriorizá-los e oferecê-los aos outros.

 

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Arte por Luis Paiva

 

(Papo Alternativo) Com o álbum lançado, quais são os próximos passos que você irá dar com seu projeto? Quais são os planos de Firgun agora?

(Firgun) Novo álbum, vida nova! Estruturar arranjos com e sem banda e, se possível, lançar-me à estrada… O próximo álbum já está em desenvolvimento, mas preciso de sentir que o “Gato Bravo” concretizou a sua função: reinventar-me em pleno (e ao meu público, se possível!). É-me impossível tirar férias da música.

 

(Papo Alternativo) Para falar sobre curiosidades a respeito da sua vida como músico, gostaria de saber quando você começou no mundo da música e quais as situações mais estranhas, interessantes e complicadas pelas quais você já passou?

(Firgun) Formei-me em contrabaixo clássico na Academia de Fornos em Santa Maria da Feira. Finalizando o meu 5.º grau, tomei a decisão de me afastar do ensino clássico e de começar a tocar com bandas.

Estive em inúmeros projetos, mas o mais bem-sucedido foi Limbus. Ao lado deles assinei o meu primeiro contrato editorial e tive as minhas primeiras experiências sérias enquanto compositor e letrista (no ambiente de estúdio). A banda terminou pouco depois da minha entrada na universidade.

Entretanto, tomei a decisão de prosseguir o meu trabalho a solo! Desde muito pequeno que me lembro da simbiose entre a minha maturação e a minha evolução musical. Quanto mais velho, mais apaixonado pela arte.

Já passei por situações muito estranhas (e já partilhei várias em entrevistas), mas prefiro partilhar uma situação muito engraçada que aconteceu este ano (aquando do meu regresso a Coimbra). Vinha no comboio e uma rapariga vinha sentada à minha frente a escutar a “Só Por Mim“. Enquanto ela cantarolava, eu continuava a ler o meu livro.

Quando chegamos à estação de Coimbra-b ela puxou-me e disse: “Estiveste a ler o caminho todo… Deve ser por isso que escreves letras tão boas!“. Sorri e saí do comboio. Engraçado foi o facto de ela me reconhecer, apesar de eu não ter demonstrado qualquer tipo de conhecimento no que toca ao facto de ela estar a ouvir o meu trabalho!

 

(Papo Alternativo) Lécio, nossa entrevista está chegando ao fim. Gostaria de parabenizá-lo pelo disco e agradecer mais uma vez por ter conversado com o Papo Alternativo. Esse último espaço é reservado para você deixar um recado para quem acompanha seu trabalho e também leu a entrevista.

(Firgun) Muito obrigado, Vinícius. Acima disso, obrigado por todo o apoio e incentivo.
A quem leu, um obrigado enorme. Escutem, partilhem e espero que gostem. Vivam satisfeitos com o que vos define e com o que vos pertence; ainda que não seja só vosso!

 


 

Confiram o álbum “Gato Bravo” nos links abaixo e acompanhem o trabalho de Firgun, através da página oficial do músico no Facebook e do perfil no Instagram.

 

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