D. Selvagi reflete o descaso brasileiro diante da pandemia em “Sou Uma Pedra”

Por: Vinícius Aliprandino

Sem conversa, sem debate, ideias rasas. Arriscando a si próprio e aos outros, se deixando contaminar, molhar em um banho de uma chuva nociva, embalado pela sonoridade do rock entre as mais diversas vertentes: indie, alternativo, post-punk, experimental, garage, noise, psicodélico, surf e Lo-Fi.

Em meio à pandemia de Covid-19, o cantor e compositor Danilo Sevali, através de seu trabalho D. Selvagi and his onemangang, gravou, do quintal de sua casa, o clipe de “Sou Uma Pedra”, com mensagem certa. Mensagem e clipe surreais, para combater tempos surreais. A arte responde a altura, mas sem se deixar contaminar.

A canção é uma crítica aos tempos em que vivemos. A negação à ciência por parte daqueles que ou acreditam que não existe nenhum perigo lá fora, ou então tem consciência e mesmo assim preferem sair para se tornarem alvos e hospedeiros de uma doença. Não. Ele não está falando de quem precisa sair para trabalhar ou para cumprir suas necessidades.

Contaminação

A questão vai diretamente em direção àquelas pessoas que saem, sem prudência alguma, para se divertir, quando a recomendação é para ficar em casa.

No clipe, Danilo exibe sua performance, trajando uma capa, em meio a chuva (produzida pela água que sai da mangueira de seu próprio quintal), sem proteção alguma.

A grande sacada é que as gotículas da “chuva” representam os perdigotos trocados em conversas, gargalhadas, espirros, tosses e muito mais interação, no dia a dia de quem sai por aí. No clipe, o personagem, encenado pelo artista, parece fazer questão de se molhar, se divertir, curtir, sentir e consequentemente, se contaminar.

Acabamos optando pelo segundo brincar mais com a performance corporal, com os pingos como se fosse uma metáfora muito louca para sprays de perdigotos e espirros da galera se contaminando. Essa foi meio que a “semiótica” da coisa toda”, explica Danilo.

Duro como uma rocha

A letra reflete sobre uma pessoa que ao mesmo tempo que é dura como uma rocha para aceitar, conversar e buscar pensar no próximo,  e então, sem sentimentos de empatia, sem preocupação coma  própria vida ou a do próximo, se expõe ao risco.

Ainda complementando o sentindo e a reflexão da faixa, o fato do indivíduo afirmar ser uma pedra, também pode ser pensado na ideia de que este acredita que nada pode afetá-lo. Uma pedra. Dura e resistente. Pensa ser tudo isso, menos um ser humano passível de se contaminar.

Mas o mergulho nas ideias que D. Selvagi busca para sua canção não para por aí. Mais ao fundo é possível perceber também a crítica ao egoísmo, a falta de dialogo. Alguém que não quer aceitar críticas e conselhos. O próprio umbigo é tudo o que importa ao ponto da pessoa se sentir melhor do que outros, como se fosse uma pedra preciosa.

Mera coincidência?

Qualquer semelhança para além de pessoas comuns, que agem dessa forma, com chefes de estado que pensam ser melhores do que qualquer outra ideia. Que por vaidade, ignorância e ego inflado, colocam a vida de milhões de pessoas em risco, o que implica com centenas de milhares de mortes, que por mais que estejam sujando suas mãos de sangue, será desconversado pela própria pessoa, não é mera coincidência.

Desafiando o comum, a canção provoca e segue  nas batidas de krautrock hipnotizantes e ritmo  neo-psicodélico. O trabalho de Danilo vai contra o aceitável e normal. Aqui a intenção é não apenas chocar, mas refletir, caminhando contra a maré.

Essa ideia já começa no formato da banda. Uma banda de uma única pessoa. Um indivíduo que puxa para si toda a responsabilidade. Ele canta, toca um violão com efeitos e toca bateria. Tudo isso ao mesmo tempo.

Surreal, obscuro e nonsense

Em preto e branco, o estilo melancólico e surreal, ao mesmo tempo nonsense da estética do vídeo, casa com os embalos da canção.

“Não ligue para nenhum conselho. Do que eles falam por aí. Do que eles contam por aí.
Do que eles contam de você. Sou uma pedra.
Não gosto de ninguém”

O trabalho foi realizado, respeitando o isolamento, munido de um celular e muita força de vontade e resistência, para dar vida e sequência na arte.

Confiram o clipe de “Sou Uma Pedra” no link abaixo e acompanhem o trabalho de D. Selvagi and His Onemangang, através da página oficial do músico no Facebook e do perfil no Instagram.

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